Museu do Vinho dos Biscoitos e Casa Brum: o vinho vulcânico da Terceira
Vamos falar de vinho da Ilha Terceira e de um local super histórico: a Casa Brum. Neste post você vai saber:
A tradição do vinho vulcânico na Terceira
Como as curraletas moldam o Vinho dos Biscoitos
A História da Casa Agrícola Brum e criação do Museu
O que ver no Museu e informações de visita
A tradição do vinho vulcânico na Terceira
A tradição do vinho na Ilha Terceira remonta aos inícios do povoamento no século XV e é um dos pilares mais importantes da viticultura açoriana.
Nos séculos XVI e XVII, a Ilha Terceira era escala obrigatória para as caravelas e gaelões das Rotas das Índias e do Brasil. O vinho dos Biscoitos era altamente apreciado porque a sua natural acidez e graduação permitiam que resistisse às longas viagens marítimas sem se estragar.
A principal casta, desde esta época, é o Verdelho dos Açores - a casta nobre por excelência da Ilha, produzindo vinhos de acidez vincada, forte mineralidade, perfil fresco e salino.
Além do vinho seco, a Ilha desenvolveu uma forte tradição no fabrico de vinhos generosos encorpados, conhecidos pela sua complexidade aromática.
Mais do que uma indústria, o vinho na Terceira é um traço de identidade cultural comunitária. A pisa das uvas em lagares tradicionais, o trabalho manual exigente de manutenção das curraletas e a partilha do vinho novo nas adegas familiares durante as vindimas continuam a ser momentos centrais da vida social na costa norte da ilha.
As Curraletas e o Chão Vulcânico
A vinha na Terceira, concentrada principalmente na freguesia dos Biscoitos, encontra alguns desafios, como o solo de rocha vulcânica e os ventos contínuos do Oceano Atlântico. Para conseguir produzir nestas condições adversas, os terceirenses desenvolveram um método único:
Muros de Pedra Negra (Curraletas): A vinha é plantada no solo vulcânico e cercada por pequenos compartimentos quadrados/retangulares feitos de pedra de basalto sobreposta sem argamassa.
Proteção térmica e marítima: Estes muros protegem as vinha dos ventos frios do Atlântico e da maresia, enquanto a pedra negra absorve o calor do sol durante o dia e o liberta para as plantas durante a noite.
O plantio e cultivo das vinhas nas curraletas (ou currais) dificulta a vindima, pois impede que seja mecanizada, além de fazer com que os produtores tenham que “saltar” todos os pequenos muros para continuar a colher as uvas.
A Casa Brum e o Museu do Vinho
A história da Casa Brum funde-se com a tradição vitivinícola dos Biscoitos. A família Brum produz vinho nesta zona vulcânica há mais de cinco gerações, e quatro séculos.
Na segunda metade do século XIX a filoxera também atingiu a Ilha Terceira e devastou todas as vinhas que existiam. Em 1890, já com conhecimento da técnica de enxertia da vitis vinífera na base da videira americana, Francisco Maria Brum começa a plantar vinhas em Fontinhas. Sete (7) anos depois faz a mudança para Biscoitos, e com dez (10) anos do plantio foram colhidas as primeiras uvas.
Francisco Maria Brum foi o fundador da Casa, e seus descendentes continuam este bonito legado. Ao completar 100 anos da Casa Brum, em 02 de fevereiro de 1990, foi então inaugurado o Museu do Vinho.
Hoje Maria Cristina e Luís Mendes Brum, quinta geração da Casa Brum, estão à frente da Adega e do Museu. Para além, Luís Mendes Brum foi o fundador da Confraria do Vinho Verdelho dos Biscoitos.
Um breve resumo histórico:
Século XIX: A família estabelece a produção agrícola nas terras de "biscoito" (curraletas de pedra basáltica negra que protegem as vinhas do vento marítimo e retêm o calor do sol).
1990: é fundado oficialmente o Museu do Vinho dos Biscoitos, o primeiro museu privado dedicado à vitivinicultura nos Açores. O objetivo foi preservar alfaias agrícolas, prensas antigas, barris e a memória da casta Verdelho dos Açores.
Patrimônio Vivo: O museu expõe lagares de pedra, sistemas de destilação e uma adega tradicional, além de manter vinhas ativas em curraletas. Para além dos objetos, as PESSOAS que fazem parte deste projeto são também um lindo patrimônio vivo!
A visita
Vou contar detalhadamente minha experiência na Casa Brum.
Antes de ir para a Ilha Terceira, e já sabendo que tinha muito interesse em visitar a Casa e o Museu, enviei um email a me apresentar e solicitar a marcação de uma visita. Não tive resposta.
Viajei, e chegando na Terceira, coloquei o Museu no Google para ver a localização e horários para visitação. A informação dizia que estava fechado naquele dia. Fiquei com a sensação de que não conseguiria visitar, mas decidimos ir até lá, pelo menos, para ver como era.
E nesta ida, já com um sentimento de frustração, eis que vejo uma Senhora atravessar a rua e ir em direção ao Museu - tomei coragem, fui atrás e perguntei se iriam abrir, pois tinha interesse em visitar. Era por volta das 13h30min, e a Senhora me disse que abriam às 14h, mas que já me deixaria entrar no local.
Assim, depois de abrir as portas dos espaços do Museu, abriu o portão e me convidou a entrar. Me disse o que eu encontraria e que poderia fazer a visita livremente. E assim foi.
Percorri o local onde já foi uma destilaria, as vinhas, e quando já estava na última sala, onde existem muitos objetos ligados às pessoas e à vinha, eis que um Senhor se senta do lado de fora, junto das escadas e na porta desta sala, e começa a conversar e contar estórias - do vinho e da vida.
Contou que a Ilha Terceira é a ilha dos Açores com maior horas de sol; que a melhor zona para vinha atinge 35º a 37ºC; que as curraletas devem estar sempre contra o norte ou noroeste; e que “Democracia e Felicidade precisam ser aos bocadinhos”.
Continuando a conversa, explicou que para ter o microclima não podem ter construções, e que o Verdelho dos Açores possui uma acidez fixa que o mantém por vários anos - sendo uma casta de baixa produção.
Confesso que só depois de longos minutos de conversa me dei conta de quem era as pessoas - a Sra. Maria Cristina Brum, e o Sr. Luís Mendes Brum - ou como ele se apresentou: “Luís, discípulo de Baco”.
Fomos para a Adega, onde provamos vinho, pão enriquecido com cevas de manteiga, compramos vinhos, e nos despedimos de uma das melhores visitas de enoturismo que a vida me proporcionou até hoje. Teria lá ficado horas, voltaria outros dias (quem sabe?!) e vou sempre me emocionar ao me lembrar daqueles “bocadinhos de felicidade”.
Posso dizer que nossa visita foi incrível e inesquecível, um dos pontos altos do meu tempo na Ilha.
O que ver no Museu e informações para a visita
No Museu do Vinho vão encontrar desde objetos relacionados à destilaria; bem como pequenos lagares de uma pedra só; tanque para lavagem de roupa, mas por ter bica, também usavam para o vinho; trajes de viticultores; pequenos objetos utilizados no cultivo; vinhas.
Junto do Museu está também a loja da Adega, onde podem sentar-se, beber um vinho e também comprar outros para levar.
Para organizar sua visita:
Telefones:
(+351)295908404
(+351)965667324
E-mail
museudovinhocasabrum@hotmail.com
Endereço:
Canada do Caldeiro
9760-054 - Biscoitos
Praia da Vitória
O Sr. Luís Mendes Brum escreve um blog que se chama Bagos de Uva - é uma compilação histórica de imagens, textos e memórias.
Não se esqueçam: mesmo que não respondam ao email, visitem! E nem sempre o Google está atualizado, razão pela qual, não desistam de ir diretamente lá.
Que a sua visita seja tão especial quanto a minha foi :)